Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

O ES na China por Rui Namorado Rosa

Caros camaradas e amigos,
Por os olhos na China


Publicado em  http://www.odiario.info/articulo.php?p=599&more=1&c=1

Citação:


A China aqui tão perto


“O que se passa com o sistema de ensino superior na China é uma questão de interesse mundial. O persistente avanço dos sistemas de ensino superior e da investigação científica na R.P. China tem consequências que se repercutem nos correspondentes sistemas em todo o mundo”. (…) No momento em que está consumado o falhanço da Estratégia de Lisboa de 2000, “seria bom e é urgente retirar consequências da observação da realidade e dos mecanismos subjacentes para como sempre aprender com ela e encontrar o caminho para o nosso próprio desenvolvimento”
Rui Namorado Rosa - 22.01.08

A R.P. China, fundada em 1949, tem conduzido nos últimos trinta anos uma política sustentada de desenvolvimento do seu sistema de ensino superior.

Existem lá, hoje, cerca de 4000 instituições de ensino superior de espectro variado, frequentadas por perto de 15 milhões de estudantes, que têm capacidade para admitir 15% da população na correspondente faixa etária. O que não sendo um desempenho excepcional por padrões dos países Ocidentais, dada porém a dimensão do país, representa uma taxa de frequência e de formação muito importante no contexto mundial.

De facto, a R.P. China é já presentemente o maior sistema de ensino superior do mundo, conferindo mais graus do que os EUA e a Índia tomados em conjunto. Para além do que, é aquele que tem exibido crescimento mais rápido; por exemplo, a taxa de escolarização na idade de ingresso subiu de 10% em 1999 para 21% em 2006; ao nível de pós-graduação o crescimento é ainda mais espectacular, de 5 mil doutoramentos anuais em 1996 para 34 mil em 2006 (ao nível da Índia, Japão e Reino Unido tomados conjuntamente), que se projecta atinja 50 mil em 2012, já à frente dos EUA. Na China, a despesa pública por estudante do ensino superior tem também aumentado, a taxa superior a 10% ao ano.

Trata-se pois de uma impressionante evolução quantitativa e qualitativa, que se traduz na qualificação sustentada da força de trabalho. Este crescimento excepcional apoia-se e alimenta o crescimento da produção económica do país, e reflecte o incremento da fracção do PIB afectado ao ensino superior: 1% em 1998 e 4% em 2007.

Em vista do esforço que vem sendo realizado, o governo não hesita em recorrer a recursos próprios e privados, como também aos apoios da UNESCO e do Banco Mundial; e as instituições a recrutar professores e investigadores no estrangeiro, quer atraindo profissionais chineses a trabalhar no estrangeiro, quer atraindo profissionais de outras nacionalidades. Para o sucesso desta política de expansão, o governo cria novas universidades, facilita os procedimentos administrativos, e investe em elevadas remunerações e modernos meios de trabalho.

O governo conduziu uma avaliação nacional do sistema de ensino superior em 1994 e de novo em 2007. Da primeira decorreu a massificação da oferta de ensino e a opção de criar universidades de elite mundial com forte conteúdo de actividade científica; assim, o governo decidiu promover dez das universidades públicas a nível de “classe mundial”, as duas primeiras das quais são Peking e Tsinghua. Novas orientações políticas, que se aguardam com expectativa, são de esperar como consequência da última avaliação em 2007.

O que se passa com o sistema de ensino superior na China é uma questão de interesse mundial. O persistente avanço dos sistemas de ensino superior e da investigação científica na R.P. China tem consequências que se repercutem nos correspondentes sistemas em todo o mundo.

A internacionalização, particularmente intensa e globalizada na época actual, compreende internacionalização de estudantes, de professores e investigadores, e também de temas de pesquisa; perto de 3 milhões de estudantes movem-se através dos continentes e entre continentes, numa tendência ascendente à taxa de 7% ao ano; a colaboração em torno de temas comuns tem-se multiplicado, desde a conquista do espaço, aos problemas globais, à erradicação de doenças, ao desenvolvimento de tecnologias de ponta. As universidades de sucesso são também campeãs da internacionalização. Este é um campo simultaneamente de intensa cooperação e intensa competição.

Os EUA e a UE (em particular o Reino Unido) foram no passado pólos de atracção de estudantes e profissionais altamente qualificados oriundos da Ásia. A “fuga de cérebros” foi identificada como uma forma de exploração neo-colonial. Ora a situação tem mudado nas décadas recentes, quer por intensificação dos fluxos inversos (de estudantes e profissionais asiáticos, do Ocidente para o Oriente, e mesmo de estudantes e profissionais Ocidentais), quer por uma forma de globalização que se manifesta na constituição de parcerias internacionais ou no estabelecimento de pólos de universidades estrangeiras em território chinês (sobretudo da Austrália e do Reino Unido). Estas mudanças servem interesses económicos e culturais mas também confluem para a qualificação da força de trabalho da R.P. China. A China ainda é uma das primeiras proveniências de estudantes estrangeiros nos EUA e na UE, mas essa realidade que foi fundamental para formar muitos estudantes e profissionais chineses nas décadas anteriores, entrou em franca regressão, em vista da crescente oferta e do crescente prestígio das universidades Chinesas e dos mais baixos encargos com estudos na China.

O caso de sucesso da R.P. China surge após o caso de outros países Asiáticos que atingiram notável desenvolvimento científico-técnico e económico em décadas precedentes (mormente o Japão), mas que não dispõem de recursos humanos e materiais em escalas comparáveis. Também se distingue da Índia que, detendo potenciais comparáveis, todavia não tem prosseguido políticas tão determinadas e consequentes, e que regista taxas de investimento e de ingresso no ensino superior que são apenas modestas. O caso da China merece ainda referencia porque não tem alienado a língua oficial nacional, que tem sido mantida e até expandida, sem prejuízo da introdução do Inglês também.

O crescimento do ritmo e da extensão de formação escolar superior é mais ou menos universal. A União Europeia pretendia com a “Estratégia de Lisboa” em 2000 recuperar o seu atraso relativo e superar as outras potências e blocos político-económicos. Na realidade, o desempenho dos sistemas de ensino superior e de investigação científica, está intimamente articulado com o desempenho do sistema técnico-económico, e a determinação e disciplina na condução de políticas são fundamentais para o seu êxito. As Áreas Europeias do Ensino Superior e da Investigação Científica têm encontrado obstáculos e os seus resultados ficado muito aquém das pretensões anunciadas. Países como o Reino Unido têm perdido capacidade de atracção e influencia na esfera da Educação e Cultura e as suas grandes universidades vão ficando diluídas num universo cada vez mais numeroso e pujante a Oriente.

Bertil Andersson, director cessante da Fundação Europeia de Ciência e vice-presidente cessante da EURAB (conselheiro da Comissão Europeia para a política da investigação científica da União) irá agora ocupar um cargo dirigente na Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura (cuja língua oficial é o chinês). Ele afirmou que a sua partida não significa desinteresse pela Europa, e rejubilará quando o Espaço Europeu da Investigação for finalmente uma realidade; e adicionou: «Porém as coisas mexem de forma incrível na Ásia. Investimentos quer públicos quer privados consideráveis são consagrados à investigação. Optei por um cargo que me permite viver de perto esta “revolução asiática”. A mobilidade para um cientista é uma via necessária para a formação ao longo da vida.» Podemos ficar na dúvida se estas frases utilizam o “calão” oficial da Comissão Europeia para fazer ironia ou por assimilada convicção.

Mas o certo é que este alto responsável por pôr de pé o anunciado Espaço Europeu da Investigação, no quadro da já quase esquecida e falhada “Estratégia de Lisboa” de 2000, reconhece o sentido principal das mudanças em curso e nelas quer ser parte mais activa (e com remuneração mais atraente).

Seria bom e é urgente retirar consequências da observação da realidade e dos mecanismos subjacentes para como sempre aprender com ela e encontrar o caminho para o nosso próprio desenvolvimento. O grande capital internacionalizado encontra o seu caminho para usufruir as mais valias onde e como elas são realizáveis. As elites financeiras e tecnocráticas navegam ao sabor das oportunidades e cumprem no plano pessoal os desígnios do capital. Mas será um poder político educado e patriótico que poderá encontrar o caminho que convém ao progresso de um povo.

18 Janeiro 2008



Bibliogafia
http://www.moe.edu.cn/english/higher_h.htm
http://www.atimes.com/atimes/China/HL21Ad01.html
http://www.higher-edge.com/docs/APR2003.China.pdf
http://ec.europa.eu/research/research-eu/53/article_5316_fr.html
http://www.ntu.edu.sg/publicportal/
http://news.bbc.co.uk/1/hi/education/7098561.stm
http://scid.stanford.edu/events/PanAsia/Papers/Carnoy.pdf
http://www.unimaas.nl/bestand.asp?id=8792
sinto-me:
publicado por pjnsilva às 17:09
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